21/04/2015

Resistência a antibióticos é encontrada em tribo isolada da Amazônia

21/04/2015 às 01:11:00

Quando cientistas tiveram contato pela primeira vez com uma tribo dos Yanomami (Ianomâmis, em português), nas montanhas remotas da floresta Amazônica (Venezuela) em 2009, perceberam a grande oportunidade de estudar a saúde de um povo que nunca havia sido exposto à medicina ou dieta ocidental. 

         Entretanto, para surpresa dos pesquisadores, as bactérias do intestino dos Ianomâmis já haviam evoluído uma diversa variedade de genes de resistência a antibióticos, embora esse povo nunca tenha ingerido antibióticos ou comido animais criados com advento de drogas. Como mencionado, o achado sugere que esses microrganismos teriam desenvolvido habilidades para combater toxinas, incluindo antibióticos, e que previnir a resistência à drogas pode ser mais difícil do que se imagina.

         O intestino humano abriga trilhões de bactérias, coletivamente conhecidas como microbiota ou microbioma ou, nesse caso, flora intestinal. Diversos estudos já mostraram que pessoas que vivem em nações e áreas industrializadas possuem um número bem menor de tipos de microrganismos, se comparados com caçadores e coletores de alimentos da África, Peru e Papua Nova-Guiné, por exemplo. Isso é intrigante, já que a ausência de diversidade bacteriana também tem sido conectada à obesidade, diabetes e diversas doenças autoimunes, como alergias, doença de Crohn, doença celíaca e colite.

         Dessa forma, quando a microbiologista Maria Domingues-Bello da Escola de Medicina da Universidade de Nova York soube que membros do exército, em um helicóptero, teriam avistado uma tribo de Ianomâmis até então inexplorada, vivendo em uma tribo nas montanhas do sul da Venezuela em 2008, ela imediatamente pediu permissão para estudar o povo antes de que fossem expostos à medicina e dieta ocidentais e acabassem por perder alguns de seus microrganismos.

"Essa informação é importante porque nos dirá que bactérias estão faltando em nossa flora, que bactérias estamos perdendo. Precisamos ter o maior entendimento possível da microbiota desta comunidade antes que ela se perca."
- Maria Domingues-Bello

         Trabalhadores da área da saúde de um programa de cuidados aos Ianomâmis foram os primeiros a fazer contato com a tribo em uma expedição médica em 2009 e coletaram bactéria das bocas, pele e fezes de 34 dos 54 Ianomâmis.

         Após 2 anos conseguindo as devidas autorizações e um atraso de 11 meses devido ao dano sofrido pelo laboratório de Maria Domingues-Bello, causado pelo Furacão Sandy, ela e seus colegas eventualmente sequenciaram o RNA da bactéria do intestino dos Ianomâmis em laboratório para comparar com amostras de Americanos industrializados, do povo Guahibo da Colômbia e com fazendeiros do Malawi. Quando comparadas as sequências genéticas, foi observado que os Ianomâmis abrigam "significativamente mais diversidade que outras populações", incluindo grandes quantidades (por exemplo) de Prevotella, Helicobacter, Oxalobacter, e Spirochaeta, que são significantemente reduzidos em humanos industrializados. Além disso, os médicos notaram que, embora esses Ianomâmis tivessem altos níveis de parasitas, eles eram saudáveis e não sofriam de doenças autoimunes, diabetes, pressão alta ou doenças cardíacas.

         Enquanto isso, o microbiologista Gautam Dantas da Universidade de Washington em St. Louis examinou as amostras orais dos Ianomâmis para verificar presença de genes resistentes a antibióticos. A estudante de graduação, sob a orientação de Dantas, Erica Pehrsson clonou DNA bacteriano dessas amostras e testou se algum de seus genes conseguiria inativar antibióticos naturais ou sintéticos. Eles observaram que as bactérias apresentavam cerca de 60 genes únicos que podem "ligar-se" para afastar antibióticos, incluindo meia dúzia de genes que poderiam proteger as bactérias dos antibióticos sintéticos. Isso é preocupante, explica Dantas, porque os pesquisadores pensaram que levaria mais tempo para que resistência contra antibióticos sintéticos fosse desenvolvida.

         Entrevistas realizadas pelas equipes médicas com os Ianomâmis reuniram informações importantes para a pesquisa. Dentre elas, soube-se que aquele povo ainda não havia sido exposto a drogas, comida ou água com antibióticos. Dessa forma, Dantas sugere que as bactérias intestinais dos Ianomâmis teriam desenvolvido um enorme arsenal de métodos para lutar contra uma grande variedade de toxinas que os ameaçam - assim como nossos ancestrais e outros primatas teriam "feito" para lutar contra microrganismos perigosos. Por exemplo, as bactérias dos Ianomâmis poderiam já ter encontrado toxinas que ocorrem naturalmente no habitat deles (que talvez não tenham sido descobertos ainda), que são similares - em estrutura molecular - a antibióticos modernos. Ou, as bactérias teriam desenvolvido um mecanismo generalizado para detectar alguns mecanismos comuns a todos os antibióticos - incluindo os sintéticos - e dessa forma pudessem montar uma defesa contra novas ameaças.

         Essa descoberta é preocupante pois sugere que "a resistência a antibióticos é antiga, diversa e espantosamente dispersa na natureza - incluindo nos nossos próprios corpos" explica a antropóloga Christina Warinner da Universidade de Oklahoma, que não é uma co-autora. "Tais descobertas e suas implicações explicam porque a resistência a antibióticos foi desenvolvida de forma tão rápida após a introdução da terapêutica dos antibióticos, e porque deveríamos estar preocupados com o uso apropriado e gestão dos antibióticos, nos contextos clínicos e agrícolas."

         Outros pesquisadores estão também interessados em explorar a função das diversas bactérias encontradas nos Ianomâmis, para ver se esses microrganismos treinam o sistema imune das crianças do povo logo cedo e se eles os protegem de doenças autoimunes. Um tipo de bactéria, Oxalobacter, encontrado nos Yanomami já é conhecida por proteger humanos da formação de pedras nos rins. "Eu acho que esses microrganismos que estão nos faltando são as raízes para as doenças do Ocidente", diz o microbiologista Justin Sonnenburg da Universidade de Stanford, co-autor do livro que está por vir "The Good Gut: Taking Control of Your Weight, Your Mood, and Your Long-term Health". "A grande mensagem deste achado é que nós, do mundo Ocidental perdemos diversidade em nossa microbiota. Temos de estudar esses grupos isolados para descobrirmos o que perdemos, o que esses microrganismos fazem, e como podemos voltar a uma microbiota saudável."

Traduzido de: Science Mag
Lucas

Tem vinte e um anos de idade e é o idealizador e designer do Química Suprema. É entusiasta na área de Divulgação Científica com ênfase nas Ciências Químicas e Farmacêuticas. Possui noções de linguagens de programação, e entende de Design Gráfico e manuseio de programas de edição. Em 2013 cursou Licenciatura em Química e em 2014 resolveu trocar para o curso de Farmácia. Estuda na UFF.


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